18 de outubro de 2013

Ver o Tempo...

 Ver o tempo que passa
E passar o tempo olhando
Observar os Sóis que vêm e vão
O vento que balança o ar
Bagunça o cabelo e derruba os telhados...

Ver a Vida que vai, como um carro veloz
E à beira do caminho ficam
Estáticos os postes, Mortas as árvores
Correm os animais, não se ouve nada

E a Vida vai passando
Os olhos arregalados
A voz muda em desespero
Vai passando lentamente a vida
Como um cortejo de morte...
E à beira do caminho ficam
As vidas vividas os sonhos morridos
As Fases da Lua
As Estações do Ano...

Eu Vejo tudo, extasiado com o Tempo
Que passa sem dizer adeus
Vai sem se quer pensar em voltar
Só deixa a saudade
A esperança que morre aos poucos
O Sonho que vira pesadelo...

Como um Rio turbulento
Cujas águas jamais voltam
Sem cumprir seu curso
E desaguam no mar, revoltoso Mar
A embarcação que reluta pra não ser levada
À deriva, pela água que vai
Ao léu, pela vida que corre
Enquanto vejo o Tempo, ele passa
E daqui não dá pra mudar nada
Não dá pra entrar no curso.
É esperar passar
...
É Ver Escurecer o Sol, brilhar as estrelas,
Fechar o tempo e enfrentar a Tempestade
Na esperança de que amanhã
O tempo volte mais ameno
E passe menos veloz
E Brilhe novamente o Sol

O Tempo passa
Os dias voam
A Vida evapora
É um Tempo muito curto
...

4 de outubro de 2013

Des-contos de uma Lua II


Em Noite de Lua Cheia...

Parece que não, mas a Lua hoje está mais brilhante, mais brilhante em todos os sentidos, está completa, reflete com toda a sua belezura o Sol. A chuva do início da Primavera dissipara a fumaça que camuflava seu brilho, e o ar parecia se deliciar com a brisa e o cheiro de flores... Uma ou outra nuvenzinha passa, mas logo é enxotada pela dona da Noite, que esbraveja a qualquer que tente ofuscar seu sombrio brilho.
Em noites de ira ela se fecha para o mundo e brilha de costas para o universo, mas hoje não, ela está mais radiante que moça do sertão em tempos de festa Junina...
Diz a lenda que é em noite de Lua Cheia que homens se transformam em lobos, mulheres em mula sem cabeça... É um mistério brilhante as estórias que rondam as noites mais claras...
Mas há de ser que nesses tempos pós-modernos essas coisas não mais acontecem, ou, se acontecem são disfarçadas em “evolução” ou em estórias científicas petrificadas, mortas, desprovidas da magia que é a vida...
Outro dia ouvi, que em períodos de lua cheia as mulheres ficam mais histéricas, os homens mais vorazes, “sexualmente falando”, falam de sensações estranhas, desejos incontroláveis visões inexplicáveis...
Ele, caminha por entre as árvores de um pequeno bosque próximo ao centro da cidade. Seus pensamentos até agora vaguearam sobre as questões e curiosidades em torno da maravilhosa lua que brilhava no céu já quase a marcar o ponto extremo acima das árvores...
As árvores do bosque permitem que raios da luz lunática alcancem o solo, lá refletem a grama molhada da chuva que caíra na tarde, aqui e ali uma pequena poça de água no chão ameaça encharcar o tênis que usa, anda com cuidado pelo caminho feito para passeios e caminhadas. Ao final do bosque um muro baixo marca o início de um pequeno cemitério que já não é mais usado, porém habitado por mortos e pequenos repteis há centenas de anos.
A trilha não chega ao muro, mas de cá pode-se ver o cume das pequenas cruzes e formas variadas das catacumbas já deterioradas pelo tempo...
Na pequena fatia de bosque que separa o caminho do muro ele ouve ruídos, é a parte mais densa da vegetação, a luz quase não chega à grama a não ser em raras frestas deixadas pelas copas das árvores mais altas. Não se preocupa, e pondera que pode ser algum pequeno animal que habita o bosque, a procura de alimentos.
No meio do caminho, em uma clareira maior a luz da lua permite uma visão perfeita da areia molhada, uma poça de água se forma bem ao centro pelo uso constante dos caminhantes, junto à poça ele observa uma pegada, parecida com um pé humano, porém mais alargado, e logo à frente outra, parecida com patas de cachorro porém muito maior do que comumente se via. De súbito um arrepio lhe passou pelo corpo. Nas pegadas escorria água vindo da poça, o que indicava que era recente, porém não havia ninguém na pista, pelo menos ele não vira nada.
Enquanto observa, um pouco encurvado para ver direito por causa da pouca visibilidade, atrás dele ouve um ruido muito próximo saindo da pequena faixa de mato e uma respiração ofegante, como de um cão farejando, e ao mesmo tempo aparentando uma pessoa cansada de uma longa corrida.
As sensações se alternam entre medo, desespero e vibração. As estórias de assombração ouvidas na infância que lhe faziam perder o sono durante as madrugadas passavam todas pela sua mente. Se levanta com um movimento leve, como quem não quer assustar a fera, ou como quem quer um tempinho para disparar em uma carreira alucinada pelo medo.
Nesse momento percebe que qualquer tentativa de movimento seria inútil, sente-se paralisado, não consegue reagir...
Ouve nitidamente os passos atrás de si, mais e mais próximos, e passa adiante, um vulto, uma pessoa, seguido por um grande cão, provavelmente seu único amigo. Leva um enorme saco nas costas, nele carrega tudo que encontra que possa de alguma forma ser útil. A roupa rasgada, suja e demasiadamente grande, está encharcada pela chuva e constantes gotas que caiam das árvores, em uma das mãos uma sacola com algumas latinhas, logo para, abaixa-se e pega uma lata de cerveja jogada à beira do caminho. Balança, escorre todo o liquido, põe-na em pé no chão e de súbito a amaça com um dos pés. Sem calçados os pés enlamaçados e achatados, talvez nunca usara um sapato. Observa mais a frente, embrenha-se no mato, faz barulhos, galhos quebram arbustos balançam, logo volta com mais uma latinha na mão e repete o ritual de amassamento.
Continua seu caminho, seguido pelo enorme cão que acompanha cada movimento, cheirando tudo que encontra, como quem procura algo para comer...
Paralisado vê o desajeitado vulto sumir na próxima curva do caminho. Não conseguiu se quer dizer “boa noite”, não foi capaz de oferecer ajuda. Deu meia volta e caminhou até o carro estacionado na rua próximo dali.
No caminho até seu apartamento uma horrível sensação toma conta da sua alma. A certeza de que seria inútil sentir pena sem se importar realmente. Covardia deixar ir sem ao menos tentar ajudar. Hipocrisia dizer que é responsabilidade do Estado, e não fazer sua parte...
A noite, embora linda se tornara em uma longa reflexão sobre a vida, a existência humana e as relações pessoais... 
Quando se viu estava de volta ao bosque, caminhando, agora à procura da estranha figura de horas atrás, a lua já se declinara para Oeste, as sombras invadiam o caminho outrora iluminado. Quando ao longe vê o vulto, se aproxima ansioso por oferecer uma noite de descanso àquela alma sofredora. Percebe que está onde antes ele observara as pegadas junto à poça, a ansiedade não o deixa observar, quando se dá conta o que vê são dois vultos, nitidamente enormes 'cães', um deles usando as roupas rasgadas que antes vira na pessoa, ambos sentados à beira da poça, olhando-o fitamente. Olhos brilhantes, dentes expostos, gestos ameaçadores. O saco estava à beira do mato. Novamente fica paralisado...
...
Às seis da manhã vozes passos, sussurros. Abre os olhos vagarosamente, a copa as árvores o deixam confuso, tudo parece estar girando, as pessoas em volta chamam, mexem, comentam o que poderia ter acontecido. Se levanta atordoado, as pessoas se dispersam uma a uma, um ou outro pergunta o que havia acontecido, prefere dizer que não sabe.
Caminha novamente até o carro, suas roupas estão sujas, reluta em sentar, pois irá sujar o banco. Arruma o espelho interno e observa sua aparência. Arranhões no rosto, sente algo estranho na boca, confere os dentes, tem quatro presas nitidamente maiores e afiadas, se assusta. Observa a camisa rasgada à altura do peito, desabotoa e vê marcas de uma mordida. Trêmulo dirige até seu apartamento. Toma banho e adormece.
...
Segunda feira, às sete da manhã o escritório já cheio de clientes, cabeça dói, mas a semana está só começando... Sai para tomar um café na padaria, enquanto toma seu café alguém põe a mão em seu ombro, quando se vira a xícara cai, boquiaberto observa à sua frente o mesmo vulto da noite anterior, respiração ofegante, à porta o cão sentado observando, se recompõe, senta-se em uma mesa com o estranho 'amigo', tomam café juntos enquanto conversam sobre política e economia...





3 de outubro de 2013

O Olhar

Há quem diga que seja ele
A janela da alma
Que diz em silêncio
Aquilo que a boca reluta em se calar
Não por ser mistério
Mas por não ter como
As palavras decifrarem
O que os segredos do coração alarma...

Eu vi, no teu olhar, uma miniatura de mim
E é de um mistério inexplicável
Algo grande demais pra ser real
Pequeno demais para conter
Um tamanho tão grande
De sentimento reduzido
Condensado em um Olhar

É no Brilho do Olhar
Que às vezes dizemos palavras indivisíveis
 E se o Olhar diz as coisas que nem eu sei
Por certo é porque o que sinto,
Não precisa de palavras

Há de ser que o Amor,
Esse que tentamos entender
Não seja feito de coisas explicáveis
Talvez seja ele um mistério 
Reservado para a alma 
Daqueles que conhecem 
Os segredos do Olhar...

S2S2